EDITORIAL

Porto & Douro Magazine


NOS 20 ANOS DA CLASSIFICAÇÃO DO DOURO PATRIMÓNIO MUNDIAL

Decorrem as comemorações dos 20 anos da classificação do Douro Património Mundial, galardão que se revelou da maior importância para a afirmação do Douro no panorama mundial. O Alto Douro Vinhateiro corresponde à área mais representativa e mais bem conservada da Região Demarcada do Douro, a mais antiga região vitícola demarcada e regulamentada do mundo, com delimitações desde 1756, tendo sido esta elemento crucial na classificação que agora comemoramos.


O Douro Património Mundial assenta numa paisagem cultural evolutiva e viva, centrada na vitivinicultura desenvolvida em condições morfológicas e edafo-climáticas extremas. Desenvolvendo-se ao longo das encostas do rio Douro, traduzindo-se numa faixa longitudinal com o rio ao centro que abrange 13 municípios, a vasta extensão territorial do Alto Douro Vinhateiro confere-lhe uma enorme notoriedade: uma superfície de 24.600 ha, cerca de um décimo do total da Região Demarcada do Douro, tendo a sua zona-tampão uma área de 225.400 ha.


A paisagem cultural do Alto Douro Vinhateiro suporta-se no vinho, cuja importância decorre da sua qualidade excecional. A cultura da vinha marca indelevelmente toda a paisagem que agora se comemora. Uma paisagem que resulta de uma relação peculiar do homem com a natureza. Ao longo de gerações, o aperfeiçoamento das técnicas de valorização do solo permitiu o cultivo da vinha em situações deveras desafiantes, sendo disso exemplo a construção de socalcos suportados por muros de xisto, os patamares e outras tipologias de implantação da vinha. Podemos observar, num mesmo alcance, no alcantilado Douro que a todos encanta, modos de organização da vinha de diferentes épocas históricas, viabilizadas pelo surgimento de novas tecnologias.


Num contexto de culturas mediterrânicas, como a oliveira e a amendoeira, é de enorme relevância a produção dos vinhos mundialmente reconhecidos correspondentes às denominações de origem Porto e Douro.


Os números mais recentes revelam a importância económica destas denominações de origem. Segundo dados de 2020, a região do Douro é a principal região vitivinícola portuguesa, não apenas em termos de área de vinha, representando 23% da área de vinha em Portugal, como também em termos de produção de vinho, representando 20% da produção de vinho em Portugal e 36% da produção de vinho com DOP. Assegura 43% das exportações de vinhos portugueses e 69% das exportações de vinhos portugueses com DOP. É de realçar que nos 11 primeiros meses do presente ano as exportações de vinhos da região atingiram quase 376 milhões de euros, verificando-se um acréscimo de 14,5%, em comparação com igual período de 2020, e um preço médio de 5,01 euros por litro, a crescer 5,4%. Assim, em 2021, os vinhos da Região Demarcada do Douro têm contribuído significativamente para o comportamento muito positivo registado nas exportações de vinhos portugueses.
Mais do que o interesse evocativo da efeméride, importará refletir e repensar o que o Douro deverá ser nas próximas décadas. Como se valorizarão os recursos que esta região oferece, como se acrescentará valor, como se proporcionarão melhores condições socioeconómicas a toda a população.


No contexto atual, importará perspetivar qual o modelo que mais atrairá o consumidor nos anos vindouros: talvez se esteja no ocaso de uma promoção orientada para os aspetos do produto, seja ele vitivinícola, turístico ou de qualquer outra natureza, e mais centrada na sustentabilidade subjacente a tudo quanto se produz e se oferece a um consumidor que terá, incontornavelmente, um novo foco de atenção.


Será essa nova perspetiva que ditará todas as políticas locais, regionais e mesmo nacionais que hoje vemos como necessárias e inadiáveis. Procuraremos respostas a desafios da maior pertinência: de como se combaterá a desertificação, de como se fixarão iniciativas que tragam criatividade, inovação e originalidade nos projetos a desenvolver.


Em suma, como poderemos preservar um território único que queremos deixar intacto para as futuras gerações.

 

Gilberto Igrejas

Presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, IP

 

 

 

 


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